quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Sentimento de reconhecimento marca cerimônia de entrega de prêmio Mestres e Mestras da Cultura Popular



Os sentimentos de reconhecimento e valorização permaneceram durante toda a cerimônia de entrega do Prêmio Mestras e Mestres da Cultura Popular de Camaçari, que de forma inédita contemplou 30 importantes nomes da sociedade local que contribuem para manutenção das tradições, disseminação e transmissão de saberes, celebrações e formas de expressões que compõem o patrimônio cultural imaterial do município em toda sua diversidade. O ato aconteceu na noite desta terça-feira (19/2), no Teatro Cidade do Saber.

Sob sorrisos, lágrimas de emoção e muitos aplausos, os homenageados subiram ao palco e demonstraram os sentimentos de gratidão, satisfação e respeito ao momento, considerado por muitos como um gesto de reparação por anos de dedicação ao ofício, mas, sobretudo de acolhimento e manutenção da cultura popular.

É o caso de Mãe Rose de Oxum do Terreiro Yle Axe Ominade, que fica em Monte Gordo, fundado há 18 anos. “Tenho 25 anos de orixá vivenciados e me sinto feliz e realizada, pois isso é fruto de uma luta e representa uma importante conquista para todos nós, que há muito pedimos respeito e reconhecimento. O trabalho de zelador de orixá é árduo. O sentimento que tenho hoje é de satisfação e gratidão. Satisfação pela Prefeitura nos reconhecer e gratidão ao irmão Tata Ricardo pela autoria e condução do projeto junto com o Conselho de Cultura”, declarou.

Para Paulo Borges de Aguiar, o mestre Paulinho como é chamado, um dos mestres do grupo Ecoar Capoeira, a cidade deu um salto de qualidade no segmento cultural. “Esse prêmio é uma espécie de reparação com uma arte que tem uma ancestralidade e merece respeito muito grande. A capoeira está diretamente ligada à história do Brasil e não é diferente em Camaçari, pois está nos anais da cidade. É importante que seja valorizada e o mestre de capoeira reconhecido”, disse.


O grupo atua com aulas para jovens desde 1993, quando passou a difundir e aplicar a metodologia da capoeira regional do mestre Bimba, que na época ainda não era praticada no município e tem uma veia mais pedagógica. “Capoeira era uma coisa de rua e nós a levamos pra as escolas, dando um viés educacional. O Conselho e a Secretaria de Cultura estão de parabéns”, concluiu mestre Paulinho.

O Pai Cosme, do Terreiro Yle Axe Baba Omim, no Phoc I, coordenador da Federação Nacional do Culto Afrobrasileiro (Fenacab) em Camaçari, foi outro premiado da noite. “Esse prêmio vem em boa hora e, com certeza, vai contribuir para a consolidação de muitos terreiros da cidade. Estou feliz com esse momento, espero por isso há 45 anos”, afirmou, fazendo referência ao tempo de fundação do terreiro.

O presidente do Conselho, Tata Ricardo, ressalta que a iniciativa é mais que justa. “É uma forma de reconhecer e reparar uma história que foi negada há séculos a homens e mulheres que dedicam sua vida e sua história ao cuidado e acolhimento das pessoas, bem como à promoção e manutenção da cultura”, pontuou. “Esses mestres são guardiões dos saberes, dos fazeres, dos falares ancestrais. E é justo hoje levar ao palco e valorizar pessoas que outrora foram marginalizadas, perseguidas, e que são estigmatizadas de forma negativa e agressiva. Nesta noite, esses mestres são tratados por nós com seu justo reconhecimento e merecimento, e isso é reparação”, finalizou.

A secretária da Cultura, Marcia Tude, fez um discurso marcado de emoção e destacou que produzir, conservar e transmitir saberes e fazeres é o papel principal que desempenham os mestres de cultura de Camaçari. “Isso tudo só foi possível pelo casamento entre o Conselho e a Secretaria de Cultura e eu aproveito para agradecer aos conselheiros, que representam tão bem a sociedade civil de Camaçari, e a toda a nossa equipe, que juntos se empenharam para chegarmos até aqui”.

Márcia disse ainda: “Hoje, olhando esse teatro lotado, sinto que a decisão de lançar o edital foi mais do que acertada. O prêmio não tem nenhuma necessidade de contrapartida, porque entendemos que a vida inteira de vocês dedicada à causa cultural já é a verdadeira contrapartida”, encerrou a gestora da Cultura ao afirmar que em breve um novo edital deve ser lançado.

O vice-prefeito, José Tude, representando o prefeito Elinaldo Araújo, lembrou que “essa ação é algo singular e que tem um valor sem precedentes, visto que notadamente traz a público o reconhecimento por parte do governo municipal e da sociedade civil, representada pelo Conselho Municipal de Cultura, pelas inúmeras contribuições que os mestres e mestras deram para a manutenção da cultura local”, afirmou.

O edital

A iniciativa, inédita no estado, é de autoria do presidente do Conselho Municipal de Cultura, Tata Ricardo Tavares, e executado em parceria com a Prefeitura de Camaçari, através da Secretaria da Cultura (Secult). Nessa primeira edição, o edital beneficiou duas categorias, mestres e mestras de Comunidades de Terreiros e de Capoeira, sendo 15 de cada segmento. Os premiados receberam o valor R$10 mil, totalizando um investimento na ordem de R$ 300 mil, provenientes do Fundo Municipal de Cultura.

Os homenageados são pessoas físicas que detêm notório conhecimento, longa e sólida permanência na atividade e são reconhecidos por sua própria comunidade como herdeiros dos saberes e fazeres da tradição popular em diversos segmentos, tais como, artes da cura, líder religioso de tradição oral, lideranças de manifestações da cultura popular de caráter sagrado ou profano, ofícios, técnicas ou “modos de fazer” e artes da capoeira.